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Riscos “invisíveis” podem prejudicar recuperação e aumentar tempo na UTI

13 de outubro de 2026 às 11:45

saúde/agência einstein
A Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é, por definição, um ambiente criado para enfrentar situações que ameaçam a vida. Mas, além da doença que levou o paciente ao hospital em primeiro lugar, existem ameaças menos visíveis que podem surgir durante a internação.


© Reprodução/Agência Einstein/Divulgação

Para além da diminuição da massa
muscular, as internações, principalmente aquelas mais prolongadas, aumentam os
riscos de infecções por superbactérias
 
Perda de força e diminuição da massa muscular costumam ser problemas recorrentes nas UTIs. Esses efeitos podem começar por várias razões, que vão desde o processo inflamatório decorrente de infecções ou outras doenças graves, passando pelo repouso prolongado, e até o uso de medicamentos que, embora necessários para o cuidado da doença, levam ao enfraquecimento do corpo.
 
A utilização de certos fármacos somada a restrições na mobilidade também favorecem o surgimento de lesões por pressão, que podem evoluir para úlceras e áreas necrosadas. Não é incomum que os pacientes ainda sofram com alterações no trânsito intestinal ou precisem ficar em jejum por algum período durante a internação, o que faz com que o aporte calórico e proteico não seja adequado.
 
Outro ponto de preocupação envolve alterações cognitivas desenvolvidas em decorrência da gravidade do quadro inflamatório, das medicações utilizadas, do histórico de condições psicológicas anteriores e do próprio fato de a pessoa estar fora da sua casa ou de um ambiente conhecido. Isso se dá principalmente em indivíduos idosos portadores de doenças neurológicas prévias, que podem enfrentar desequilíbrios no ciclo de sono, ficando agitados durante a noite, confusos e desorientados.
 
“Essas questões podem prolongar a recuperação, aumentar o tempo de internação na UTI e o tempo de ventilação mecânica, além de impactar a mortalidade dos pacientes e comprometer seu retorno às atividades da vida diária após a alta hospitalar”, explica a médica intensivista Amanda Pascoal Valle, que atua como coordenadora da UTI adulto do Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques de Carvalho - Vila Santa Catarina, unidade pública em São Paulo gerida pelo Einstein Hospital Israelita. Mas os perigos não param por aí.
 
Infecções por bactérias resistentes
 
As infecções adquiridas no ambiente hospitalar são consideradas uma das maiores ameaças dentro da UTI, principalmente aquelas causadas por bactérias multirresistentes, popularmente conhecidas como superbactérias. Uma vez que o paciente entra no hospital, ele passa a ser exposto a germes, e isso é particularmente perigoso entre quem está na UTI. Essas pessoas tendem a ficar mais vulneráveis devido a condições predisponentes, como cateteres ou tubos que rompem as barreiras protetoras naturais do corpo, algum tipo de imunossupressão induzida pelos remédios ou pela gravidade das próprias condições que as levaram à internação.
 
“É um paradoxo: o hospital, que é um lugar de cura, acaba sendo também um ambiente que pode perpetuar a doença, por reunir diferentes microrganismos, inclusive, alguns únicos, que não existem fora dele”, afirma o médico intensivista Adriano José Pereira, coordenador médico de Tele-UTI do Einstein. “Essas bactérias estão nas grades da cama, nos botões dos monitores, nas mãos da equipe e nos equipamentos de internação. Tudo pode servir de meio para que elas cheguem ao organismo humano, rompam nossas barreiras naturais e se propaguem em uma infecção.”
 
Nem os antibióticos conseguem impedir esses riscos. Além da bactéria específica que causa infecção, os medicamentos também atingem microrganismos benéficos, prejudicando seu bom funcionamento. Quando utilizadas com frequência e de maneira indiscriminada, essas drogas estimulam o fenômeno biológico de pressão de seleção, no qual bactérias que apresentam características que as tornam mais resistentes ao fármaco utilizado sobrevivem e se reproduzem, enquanto as mais suscetíveis são eliminadas.
 
Com o passar do tempo, tal seleção favorece a multiplicação e a disseminação das bactérias resistentes, fazendo com que os tratamentos percam eficácia e tornando algumas infecções progressivamente mais difíceis de encerrar. “As bactérias têm uma capacidade impressionante e bastante sofisticada de resistir aos antibióticos. Elas conseguem produzir mecanismos de resistência com muito mais eficiência do que nós, seres humanos, conseguimos sintetizar novas moléculas”, avalia Pereira. “Por isso, esse problema não deve ser enfrentado olhando apenas para o antibiótico. Precisamos seguir medidas de segurança rígidas nas UTIs para controlar esses riscos.”
 
A resistência antimicrobiana (RAM) já é uma realidade. Uma pesquisa publicada em julho na Nature Communications revela que cerca de 27% de todos os pacientes admitidos em uma UTI na Índia apresentaram resultados positivos de infecção por bactérias da ordem Enterobacterales que desenvolveram resistência a carbapenêmicos produtores de carbapenemase, um tipo de antibiótico de última linha. A análise genômica mostrou alta concentração de Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, sugerindo eventos de transmissão tanto dentro quanto fora do ambiente hospitalar.
 
E o problema tende a piorar. De acordo com um estudo conduzido pelo consórcio Global Burden of Disease (GBD) e publicado em 2024 na revista The Lancet, entre 1990 e 2021, aproximadamente 4,71 milhões de mortes estiveram associadas à RAM. Desse total, 1,14 milhão foram diretamente atribuídas ao problema. A equipe ainda projeta que, se as medidas de combate às superbactérias não forem fortalecidas, até 1,91 milhão de óbitos atribuíveis e outros 8,22 milhões associados à RAM poderão ocorrer em 2050. Acredita-se que essas fatalidades ocorrerão, sobretudo, no sul da Ásia e na América Latina e Caribe.
 
Medidas de combate aos riscos
 
Devido à complexidade do desafio, não é todo o hospital que consegue evitar os riscos “invisíveis” da UTI. Mas, com esforço coordenado e coletivo, tampouco se trata de uma missão impossível. Sem registros de infecções hospitalares na UTI adulto há cerca de um ano, o Hospital Municipal Vila Santa Catarina segue à risca os protocolos para a redução de infecções relacionadas à assistência à saúde recomendados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Ministério da Saúde e pelo próprio Einstein.
 
Entre as medidas adotadas como boas práticas, destaca-se o cuidado com os equipamentos utilizados de internação. “No caso do cateter venoso central, avaliamos todos os dias se ele ainda é necessário e se as medicações administradas por ele poderiam ser infundidas por um acesso periférico menos invasivo”, observa Amanda Valle. “Também avaliamos regularmente a sedação do paciente, buscando deixá-la em um valor mínimo para tentar despertar a pessoa e retirá-la da ventilação mecânica o quanto antes, a fim de reduzir o tempo de exposição a esse risco.”
 
Além disso, a higiene das mãos e o uso de máscara aparecem como uma das indicações mais importantes para a prevenção de novas infecções nas UTIs. Isso vale tanto para médicos, enfermeiros e outros profissionais que compõem a equipe de saúde quanto para os acompanhantes dos pacientes, que correm o risco de trazer microrganismos da rua e contaminar um ambiente que precisa permanecer o mais asséptico possível.
 
É justamente nesse campo que atua o projeto IMPACTO-MR, construído por seis hospitais brasileiros, incluindo o Einstein, no âmbito do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). A plataforma, voltada à prevenção, ao controle e ao tratamento das infecções, reúne dados clínicos, microbiológicos, epidemiológicos, ambientais e econômicos.
 
Dentre as frentes conduzidas pelo Einstein está a investigação do ambiente hospitalar. Estudos realizados entre 2019 e 2022 avaliaram o microbioma de superfícies de UTIs e suas práticas de higienização. “Analisando as diferentes superfícies, encontramos contaminação em 25% das amostras de desinfetante coletadas. Ou seja, verificamos que o microrganismo consegue sobreviver mesmo em contato com o desinfetante, seja porque o produto estava muito diluído e/ou porque foi contaminado na manipulação (por exemplo, durante a utilização de baldes ou panos maciçamente contaminados)”, relata Adriano Pereira, que é um dos pesquisadores do IMPACTO-MR no Einstein.
 
A partir desses resultados, o projeto passou a desenvolver novas pesquisas para testar estratégias capazes de reduzir a transmissão de microrganismos, como por meio do desenvolvimento de agentes desinfetantes e tecnologias de desinfecção sem contato direto, entre eles luz ultravioleta e peróxido de hidrogênio em aerossol.
 
O objetivo agora é avaliar se intensificar a desinfecção ambiental reduz realmente as infecções, em quais condições isso ocorre, quais seus custos, eventuais efeitos adversos dessas intervenções e como incorporar essas tecnologias de forma viável à rotina dos hospitais brasileiros.
 
Por Arthur Almeida, da Agência Einstein