O cientista político Antonio Lavareda afirmou que a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição presidencial não decorreu de um avanço expressivo do senador, mas principalmente de uma queda na mobilização do eleitorado petista.

Cientista político Antonio Lavareda © Reprodução/oglobo.globo.com/
Cientista político afirma que senador manteve seu percentual sobre o eleitorado total, enquanto petista perdeu cerca de cinco pontos para a abstenção |
Em entrevista ao Programa do Noblat, do
Metrópoles, Lavareda classificou a ultrapassagem de Flávio sobre Lula como uma “
ilusão de ótica”. Segundo sua análise, o candidato do PL permaneceu com aproximadamente 35% quando considerados os votos em relação ao conjunto do eleitorado, enquanto Lula perdeu cerca de cinco pontos para a abstenção.
A avaliação desloca o centro do debate sobre o resultado do primeiro turno. Em vez de uma transferência maciça de votos para Flávio, Lavareda identifica como um dos principais problemas para Lula a desmobilização de parte dos eleitores que poderiam ter comparecido às urnas em favor do presidente.
Segundo turno exige reação de Lula
Para Lavareda, Flávio Bolsonaro parte com uma vantagem no segundo turno devido à tendência de migração ideológica dos eleitores que escolheram candidatos de terceira via na primeira etapa da disputa.
Nesse cenário, o cientista político considera que a campanha de Lula terá de atuar simultaneamente em diferentes frentes. Uma delas é reduzir a abstenção entre seus potenciais eleitores, especialmente aqueles que deixaram de votar no primeiro turno.
Outra estratégia apontada pelo analista é aumentar a rejeição de Flávio Bolsonaro. A campanha petista também precisaria, segundo Lavareda, disputar com mais força a ideia de mudança, discurso que até agora estaria sendo explorado principalmente pela oposição.
A leitura indica que a recuperação de Lula não dependeria apenas da conquista dos votos destinados a outros candidatos, mas também da capacidade de levar novamente às urnas eleitores que se abstiveram.
PL avançou sobre espaço ocupado pelo Centrão
Lavareda também analisou o resultado das eleições legislativas e afirmou que o crescimento da bancada do PL não ocorreu principalmente às custas dos partidos de esquerda.
Na avaliação do cientista político, o partido ligado ao bolsonarismo avançou sobretudo sobre o eleitorado e o espaço político tradicionalmente ocupados por legendas do Centrão.
Esse movimento teria sido impulsionado por uma mobilização digital fortemente ideologizada, capaz de concentrar votos no PL e reduzir a força de partidos de centro e centro-direita que historicamente ocupavam parte relevante do Congresso.
A análise sugere uma reorganização do campo conservador, com o bolsonarismo absorvendo parcelas do eleitorado antes distribuídas entre diferentes partidos.
Lavareda vê Jair Bolsonaro como estrategista da eleição
Ao avaliar a estratégia política do grupo bolsonarista, Lavareda apontou Jair Bolsonaro como um dos principais vencedores do processo eleitoral até aqui.
Segundo o cientista político, o ex-presidente conseguiu impor a candidatura do filho mesmo diante da resistência de setores da imprensa e de aliados que defendiam outros nomes para representar a direita na corrida presidencial.
Para Lavareda, a decisão de sustentar Flávio Bolsonaro como candidato mostrou-se eleitoralmente eficiente diante do resultado do primeiro turno e colocou o senador em posição competitiva para a etapa decisiva da eleição.
A análise do cientista político, porém, indica que o resultado permanece diretamente ligado à capacidade das campanhas de mobilizar seus respectivos eleitorados. Para Lula, o desafio central será recuperar parte dos votos perdidos para a abstenção e disputar o eleitor que deseja mudanças sem abrir mão da defesa das realizações de seu governo.