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Filhos de pais divorciados têm 41% mais chance de desenvolver depressão

30 de setembro de 2026 às 17:16

saúde/agência einstein
Filhos de pais que se divorciaram durante sua infância apresentam maior chance de ter depressão na vida adulta, mas a separação em si pode não ser a principal responsável por essa associação. É o que sugere um estudo com mais de 128 mil adultos dos Estados Unidos, publicado na revista Psychiatry Research. Quando os pesquisadores consideraram a presença de transtornos mentais e problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas pelos pais, a relação entre divórcio e depressão deixou de ser estatisticamente significativa.
 

© Reprodução/Agência Einstein

Estudo com mais de 128 mil adultos
mostra maior risco após a separação dos pais,
mas a associação diminui quando outros
fatores familiares são considerados
 
Na análise inicial, adultos que haviam passado pelo divórcio dos pais antes dos 18 anos apresentaram 41% mais chance de relatar um diagnóstico de depressão ao longo da vida em comparação com aqueles cujos pais permaneceram casados. A prevalência foi de 19,2% no primeiro grupo e de 14,1% no segundo.
 
A diferença, no entanto, diminuiu quando os pesquisadores consideraram outras condições presentes no ambiente familiar. Mais de um em cada cinco participantes que haviam vivenciado o divórcio dos pais relataram ter crescido com um deles enfrentando algum transtorno mental, contra um em cada dez entre aqueles cujos pais permaneceram casados. Problemas relacionados ao uso de substâncias também foram mais frequentes no grupo de filhos de pais divorciados: 35% contra 15%, respectivamente.
 
Segundo Arthur Vaciloto, psicólogo do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, isso não significa que a separação seja indiferente para os filhos, mas indica que é preciso considerar o contexto em que ela acontece. “A depressão e outros transtornos mentais são multifatoriais. Dificilmente será possível isolar e identificar uma única causa. Um ambiente instável e inseguro para a criança com certeza pode ser mais prejudicial para sua saúde mental do que o divórcio em si”, comenta o psicólogo. Ele diz que, se, por exemplo, a criança constantemente presenciar brigas e discussões entre o casal, a separação pode significar que as brigas irão parar de acontecer em casa, gerando até mesmo alívio.
 
Para Vaciloto, também é importante lembrar que o divórcio raramente começa no momento em que o casal formaliza a separação. “Por muitas vezes, o divórcio é uma formalização de um processo que acontece há algum tempo. O impacto na formação dos filhos está diretamente relacionado à maneira como os pais conduzem a separação”, diz.
 
Em famílias marcadas por discussões frequentes, o casal permanecer junto não necessariamente significa preservar a criança. A exposição constante aos conflitos pode aumentar o estresse e influenciar a maneira como ela aprende a lidar com os próprios problemas. “Pode ocorrer uma normalização da violência verbal ou até mesmo física, uma vez que as figuras de referência da criança estão resolvendo os conflitos de maneira violenta e pouco adaptativa”, explica o psicólogo. Segundo ele, ao observar esse comportamento repetidamente, a criança pode passar a reproduzi-lo em outras relações e contextos, como na escola.
 
O impacto da separação dos pais também varia conforme a idade e a capacidade da criança de compreender o que está acontecendo. Nas menores, podem surgir irritabilidade e regressões em comportamentos já superados; em outras fases, ansiedade de separação e mudanças de comportamento podem chamar atenção.
 
Por isso, a maneira como os adultos conduzem a separação pode ajudar a proteger a saúde mental da criança. “É importante frisar que se trata de um processo entre o casal, eximindo a criança de ter culpa no que está acontecendo, e reforçar que, apesar da nova configuração familiar, ambos continuarão emocionalmente disponíveis e presentes”, orienta Vaciloto.
 
O psicólogo ressalta que também é fundamental evitar colocar os filhos no centro das disputas, expô-los a brigas ou tentar fazê-los tomar partido. Ele alerta que, se surgirem sinais como alterações persistentes no sono, dificuldade de alimentação, perda de interesse por atividades habituais de que a criança gostava, talvez seja necessário buscar apoio profissional. “É extremamente importante que haja um canal de diálogo estabelecido entre o filho e os pais, sinalizando não haver problema em não estar se sentindo bem com a mudança e de que, independentemente da separação, seus pais sempre estarão presentes”, conclui.
 
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein