Nem sempre o fígado dói ou dá sinais claros quando algo não vai bem. Na verdade, esse é um dos principais desafios das doenças hepáticas, que podem evoluir durante anos silenciosamente, enquanto inflamação, acúmulo de gordura e até fibrose avançam sem causar sintomas evidentes. Ainda assim, alguns sinais persistentes, mas que passam muitas vezes despercebidos, podem servir de alerta e merecem investigação médica.

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Cansaço persistente, alterações na pele e aumento da gordura abdominal estão entre os sintomas que podem indicar problemas hepáticos; saiba quando é hora de investigar |
O fígado é um órgão com grande capacidade de reserva e regeneração. Isso significa que ele pode continuar funcionando mesmo quando já existe algum problema. “Muitos sinais das doenças do fígado são inespecíficos e também podem ocorrer em outras condições. Por isso, eles nunca devem ser avaliados isoladamente, mas no contexto clínico e dos fatores de risco de cada pessoa”, explica a gastroenterologista Lilian Curvelo, do Einstein Hospital Israelita. Esperar o aparecimento de manifestações mais graves pode atrasar o diagnóstico e reduzir as chances de impedir a progressão da doença.
Um dos sintomas mais frequentes de que o fígado pode não estar bem é o cansaço persistente, sem uma causa aparente. Embora seja um sinal comum a várias doenças, ele pode surgir em pessoas com doenças hepáticas crônicas porque o fígado participa do metabolismo energético, da regulação dos processos inflamatórios e da eliminação de substâncias do organismo. “Quando há inflamação ou fibrose, o paciente pode apresentar uma fadiga desproporcional”, explica Curvelo.
Outro sinal que merece atenção é o aumento progressivo da gordura abdominal. Apesar de não ser um sintoma provocado diretamente pelo fígado, ele é considerado um marcador de risco metabólico. O excesso de gordura visceral está associado à resistência à insulina, ao diabetes tipo 2, às alterações do colesterol e à doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), uma das principais causas de doença hepática no mundo.
Alterações na pele também podem sinalizar problemas. Quadros de coceira persistente, pele muito ressecada, vermelhidão nas palmas das mãos e manchas escurecidas em regiões como pescoço e axilas (chamada acantose nigricans) podem estar relacionadas a alterações da função hepática ou às doenças metabólicas que frequentemente acompanham a gordura no fígado. A coceira intensa pode ocorrer quando há comprometimento do fluxo da bile, enquanto a acantose nigricans costuma indicar um quadro de resistência à insulina.
Outra manifestação nem sempre relacionada aos problemas no fígado são as alterações cognitivas. Dificuldade de concentração, falhas de memória, irritabilidade, sonolência durante o dia, inversão do ciclo do sono e até confusão mental podem indicar encefalopatia hepática, uma complicação das doenças avançadas. “Esses sintomas exigem avaliação médica imediata”, alerta a especialista.
Já o desconforto do lado direito do abdômen, com uma sensação de peso ou de pressão abaixo da costela, especialmente após as refeições, pode estar relacionado ao aumento do fígado. Isso acontece em condições como esteatose, hepatites ou congestão hepática — embora a dor abdominal isolada não confirme um problema hepático.
O órgão também pode se manifestar com sinais como pele e olhos amarelados, urina escura, fezes muito claras, barriga e pernas inchadas, sangramentos fáceis, manchas roxas sem trauma aparente, perda de massa muscular e emagrecimento sem explicação. Esses casos exigem avaliação médica imediata, pois são sinais de alarme de que o fígado pode ter uma doença grave. Quando os sinais forem persistentes ou aparecerem em pessoas com obesidade abdominal, diabetes, colesterol elevado, hipertensão, consumo frequente de álcool ou uso de medicamentos e suplementos com potencial de causar lesões no fígado, também é necessária avaliação médica.
Como é feito o diagnóstico?
Para confirmar ou descartar um problema hepático, o primeiro passo é realizar exames de sangue que medem enzimas e outros marcadores da função do fígado. Em alguns casos, porém, eles não são suficientes. “Uma pessoa pode ter gordura no fígado ou até fibrose mesmo com enzimas hepáticas normais. Por isso, muitas vezes precisamos complementar a investigação com exames de imagem, como a ultrassonografia abdominal, a elastografia hepática ou testes específicos para avaliar a presença de fibrose”, relata Lilian Curvelo.
A boa notícia é que muitas doenças hepáticas podem ser controladas e, em alguns casos, até regredir quando descobertas precocemente. Na doença hepática gordurosa, por exemplo, perder peso, praticar atividade física regularmente, melhorar a alimentação e controlar diabetes, colesterol e pressão arterial ajudam a reduzir a gordura no fígado, a inflamação e até parte da fibrose. Nas hepatites virais, os tratamentos atuais conseguem controlar a doença e, no caso da hepatite C, até curar a infecção.
“O fígado raramente avisa cedo. Pessoas com fatores de risco devem fazer uma avaliação preventiva, mesmo quando se sentem bem. O diagnóstico precoce faz toda a diferença para evitar a progressão da doença”, conclui a médica do Einstein.
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein