* * * * * *

Estudo identifica como o linfoma “desliga” células de defesa do organismo

16 de agosto de 2026 às 11:35

saúde/agência einstein
O linfoma é um tipo de câncer que ataca o sistema linfático, responsável por produzir as células de defesa do organismo. Há mais de 60 tipos diferentes desse tumor, divididos em dois grandes grupos: Hodgkin e não Hodgkin. Uma das formas mais agressivas, o linfoma difuso de grandes células B (LDGCB), é também uma das mais frequentes na população: estima-se que 40% dos linfomas não Hodgkin sejam LDGCB, o que no Brasil representa quase 5 mil novos diagnósticos por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca).
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Pesquisa revela que câncer bloqueia
proteína essencial para maturação das células
imunes, permitindo que a doença evolua
de maneira agressiva
 
O LDGCB é um dos tipos mais agressivos por ter uma capacidade de crescimento muito rápido e por sua facilidade de ocorrer fora dos linfonodos”, explica o hematologista Guilherme Perini, do Centro de Excelência em Linfomas do Einstein Hospital Israelita. Daí por que a ciência tem se dedicado a estudar mais esses tumores. Um estudo publicado em março no Journal of Immunology encontrou respostas que podem ajudar a entender sua origem, agressividade e até indicar um caminho novo de tratamento.
 
Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Josep Carreras, na Espanha, identificaram em células humanas in vitro e depois em animais um mecanismo pelo qual o linfoma consegue comprometer o sistema imunológico, facilitando a própria multiplicação. De acordo com os achados, o LDGCB age impedindo a expressão de uma proteína responsável pelo amadurecimento das células B, que produzem anticorpos e são uma das principais linhas de defesa do organismo.
 
Ao não receberem uma proteína chamada HDAC7, as células passam a se multiplicar descontroladamente. O estudo indica que a diminuição dessa proteína foi associada a um prognóstico ruim, possivelmente facilitando o avanço da doença. “O linfoma não ataca diretamente a proteína, mas diminui sua expressão de modo que essas células não conseguem chegar aos níveis adequados de HDAC7. Dessa maneira, elas ficam presas em um estado imaturo que as conduz a uma proliferação de forma descontrolada, agressiva e sem serem capazes de cumprir sua função como células de defesa", explica a pesquisadora Mar Gusi-Vives, uma das autoras do artigo, à Agência Einstein.
 
Uma maneira de entender o mecanismo é pensar que ele desativa “interruptores”. “A presença do tumor não altera a célula de defesa, mas muda como ela manifesta seus genes. Em condições normais e saudáveis, esse interruptor permanece ligado, já que tem um papel importante na maturação da célula. Mas as mutações cancerígenas parecem conseguir desligá-lo permanentemente, mesmo sem comprometer o DNA”, esmiúça Gusi-Vives.
 
Esse processo pode ajudar a explicar o que leva o LDGCB a avançar tão rapidamente. Mas a pesquisa também aponta como religar o “interruptor” desativado. Isso melhorou a saúde de animais com linfoma, além de mostrar bons resultados de redução de células tumorais. “Ao fazer a reexpressão dessa proteína, as células conseguiram retomar essa programação de amadurecimento que havia sido interrompida e se desenvolver para se tornarem células de defesa”, analisa Perini. “O linfoma surge exatamente quando há um erro na programação da célula, como um bug de computador. A pesquisa identificou a origem desse bug e mostrou que, quando você arruma esse pequeno problema no código, é possível fazer com que a célula volte ao normal.
 
Longo caminho
 
Apesar dos resultados animadores, é preciso cautela. "Em pessoas, não é possível reintroduzir a proteína como fizemos em nível experimental”, avisa a pesquisadora. “Em pacientes, o que teremos que buscar é impedir que o tumor bloqueie a expressão da proteína.
 
Vale lembrar também que a trajetória de uma descoberta em animais até se tornar uma terapia eficaz em humanos é complexa. "Após a prova biológica, demonstrada no estudo, inicia-se um longo caminho para saber se isso pode se reverter em uma terapia. Para isso, a proteína usada tem de ser eficaz e ter pouco efeito em outras células normais”, explica o hematologista do Einstein.
 
Atualmente, o tratamento do linfoma difuso de grandes células B combina quimioterapia e imunoterapia. Com diagnóstico precoce e terapias corretas, estima-se que 70% dos pacientes alcançam a remissão completa. Para os casos em que a doença resiste, uma alternativa promissora são as terapias celulares, como a CAR-T, que utiliza células do próprio paciente, modificadas geneticamente, para atacar células relacionadas ao câncer sanguíneo. "O futuro é a gente ter um arsenal de terapias cada vez mais variado, e novas armas são sempre bem recebidas nessa batalha", conclui Guilherme Perini.
 
Por Bruno Bucis, da Agência Einstein