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Transtorno de múltiplas identidades existe? O que a ciência sabe

22 de julho de 2026 às 18:07

saúde/agência einstein
Uma pessoa sai de casa para trabalhar e, horas depois, “acorda” em outro bairro sem saber como chegou ali. Outra encontra roupas no armário que não se lembra de ter comprado. Há quem seja chamado por nomes desconhecidos ou descubra mensagens enviadas sem qualquer recordação. Embora pareçam cenas de suspense psicológico, esses episódios podem fazer parte do cotidiano de quem vive com o transtorno dissociativo de identidade (TDI), condição psiquiátrica em que duas ou mais identidades distintas se alternam no controle da mesma pessoa.
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Associado a traumas na infância, o
transtorno dissociativo de identidade
(TDI) provoca rupturas na memória e na
percepção de si mesmo, mas ainda
é cercado por mitos
 
Descrito no DSM-5, manual de referência da psiquiatria, o transtorno envolve rupturas na memória, na percepção de si e no comportamento. As chamadas identidades alternativas — também conhecidas como alters — podem ter maneiras próprias de falar, agir, lembrar e interpretar o mundo. “Algo imprescindível nesse quadro é a existência de uma lacuna de memória, onde uma identidade não lembra da outra”, explica o psiquiatra Daniel Oliva, do Espaço Einstein de Bem-estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita.
 
Na prática clínica, porém, o transtorno raramente se parece com as versões exageradas popularizadas pelo cinema, como nos filmes Fragmentado (2016) e Vidro (2019), nos quais o personagem Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) manifesta 23 personalidades distintas, com algumas bem violentas. A forma mais comum é a chamada não possessiva, em que as mudanças são discretas e internas. “Geralmente são mais egodistônicas, ou seja, a pessoa não quer ter e, com isso, acaba aparecendo de uma maneira menos exuberante, mais tímida”, relata Oliva.
 
O paciente frequentemente relata sensação de despersonalização, como se observasse a própria vida de fora. “Além disso, é comum o relato de vozes internas, que não são alucinações psicóticas, mas fluxos de pensamento independentes das outras identidades”, comenta a psicóloga Lidiane de Souza, professora da Universidade São Judas, em São Paulo.
 
Já na forma possessiva, há uma egossintonia. “Geralmente, tem um reforço cultural ou permissividade. A pessoa quer apresentar aquilo”, sinaliza o psiquiatra do Einstein. Esse “querer” não é uma vontade consciente, mas a pessoa se permite. “Com isso, a forma aparente vai ser mais exuberante, mais marcada e aparecer no meio social mais frequentemente.
 
Diagnosticar o transtorno, porém, não é simples. O TDI pode ser confundido com condições psiquiátricas que também envolvem alterações de comportamento, percepção ou identidade, como esquizofrenia, transtorno de personalidade borderline, epilepsia do lobo temporal e transtorno factício. No entanto, o mais frequente é um cenário de subdiagnóstico, com o transtorno não sendo identificado, muitas vezes porque o paciente sente vergonha e realiza esforços persistentes para ocultar suas experiências internas.
 
O trauma como ponto de partida
 
O principal consenso científico atualmente é de que o TDI está associado a traumas graves e repetidos na infância. Revisão publicada em 2025 na revista científica Frontiers in Psychiatry aponta que a maioria dos pacientes relata sintomas iniciais ainda entre os 5 e 8 anos de idade.
 
O trauma não é apenas um fator de risco, ele é a espinha dorsal do TDI”, afirma Souza. Segundo ela, abusos físicos, sexuais, emocionais e ambientes cronicamente aterrorizantes podem levar a criança a desenvolver a dissociação como mecanismo extremo de sobrevivência psíquica. Diante de experiências insuportáveis, a mente fragmenta emoções, memórias e comportamentos para preservar algum funcionamento emocional. “Não compreendemos o TDI como a criação de várias pessoas habitando um mesmo corpo, mas como uma falha profunda na integração de um repertório comportamental coeso”, explica a psicóloga.
 
Estudo publicado em 2025 na Psychiatry Research, com participantes da Holanda e da Suíça, reforça essa relação. Os pesquisadores observaram que pessoas com TDI apresentavam níveis significativamente maiores de sintomas dissociativos, depressão, ansiedade, experiências traumáticas e distúrbios do sono em comparação ao grupo controle. “Também existem alguns componentes sociais que podem estar no contexto da origem do transtorno, como influência cultural do meio e sugestionabilidade. Mas, sim, o trauma é um ponto importante”, reforça Daniel Oliva.
 
Quando a memória desaparece
 
Os lapsos de memória são um dos sinais mais marcantes do transtorno — e um dos mais incapacitantes. Não se trata apenas de esquecer compromissos ou nomes; alguns indivíduos narram perder horas sem qualquer lembrança do que aconteceu. “As pessoas relatam se encontrar em lugares que não sabem como chegaram lá, ou ter objetos em posse que não reconhecem. Além disso, cada alter tem memórias gravadas e acesso a essas memórias de uma maneira particular”, relata o psiquiatra.
 
Essa descontinuidade afeta relacionamentos, trabalho e vida social. Parceiros e familiares frequentemente se sentem invalidados ou magoados quando a pessoa não recorda momentos significativos ou nega atitudes que, na verdade, foram tomadas por outro estado de identidade. “Sem diagnóstico e psicoeducação adequados, isso leva a conflitos severos e ao isolamento social”, afirma Lidiane de Souza.
 
Nos últimos anos, pesquisadores passaram a questionar se essa separação entre identidades funciona como compartimentos totalmente isolados da mente. A revisão da Frontiers in Psychiatry sugere que parte da amnésia dissociativa também pode estar ligada a crenças distorcidas sobre memória, trauma e identidade, uma visão que vem mudando a forma como o transtorno é tratado.
 
Dá para “unificar” as identidades?
 
O tratamento do TDI costuma ser longo e centrado em psicoterapia especializada em trauma, como terapia focada em fases, terapia cognitivo-comportamental adaptada, terapia de aceitação e compromisso, psicoterapia analítica funcional e EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares, traduzido do inglês).
 
A prioridade inicial é estabilizar sintomas, criar segurança emocional e fortalecer o vínculo terapêutico. Em seguida, procura-se acessar o que está na base traumática que impacta o indivíduo. Com o tempo, o trabalho busca integração entre as identidades, embora isso nem sempre signifique “fusão completa”. “Na prática do dia a dia, muitas vezes conseguimos uma integração sem fusão. Elas continuam coexistindo, mas de maneira cooperativa”, explica Oliva.
 
A psicóloga chama esse processo de “multiplicidade funcional”: as identidades passam a compartilhar memórias, estabelecer comunicação interna e funcionar de forma mais harmônica, reduzindo o sofrimento. No entanto, não há medicação para tratar diretamente o transtorno. Antidepressivos e antipsicóticos podem ser receitados em caso de condições concomitantes, como depressão, transtorno de ansiedade, transtorno do estresse pós-traumático, impulsividade ou pensamentos de menos-valia.
 
Ainda assim, a evidência científica disponível permanece limitada. A revisão da Frontiers in Psychiatry destaca que faltam ensaios clínicos robustos para determinar quais tratamentos são mais eficazes. Por trás das caricaturas e do estigma de perigosos, o TDI fala menos sobre “personalidades misteriosas” e mais sobre uma mente tentando sobreviver a traumas extremos. “Essas pessoas são muito mais propensas a serem vítimas de novos abusos do que perpetradoras deles”, avalia Souza.
 
Por Léo Marques, da Agência Einstein