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Quando odiar mulheres vira projeto de sociedade

14 de julho de 2026 às 18:06

pauta livre/analista político
O recente caso de estupro coletivo envolvendo uma adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro chocou o país não apenas pela brutalidade do crime, mas também por um detalhe que revela algo ainda mais preocupante sobre o tempo em que vivemos. Um dos suspeitos apresentou-se à polícia vestindo uma camiseta associada ao universo "redpill". Pouco depois, reportagens mostraram que a peça havia se esgotado nas lojas. O que poderia parecer apenas um símbolo da cultura digital revelou-se um sintoma de um problema muito maior: o crescimento de uma cultura organizada de ódio às mulheres.
 

Imagem criada pela IA/ChatGPT
 
Nos últimos meses, esse debate ganhou dimensão internacional. A série Adolescência, da Netflix, transformou-se em um fenômeno justamente por abordar como adolescentes do sexo masculino podem ser capturados por comunidades virtuais marcadas pela misoginia, pelo ressentimento e pela radicalização. A produção não trata apenas de violência, mas de um processo silencioso de formação de identidades masculinas alimentadas por algoritmos que transformam insegurança em intolerância e frustração em ódio.
 
O termo redpill nasceu como referência ao filme Matrix, no qual o protagonista escolhe entre permanecer na ilusão ou conhecer a "verdade". Nas redes digitais, entretanto, essa metáfora foi apropriada por grupos masculinos que afirmam ter descoberto uma suposta realidade segundo a qual os homens seriam vítimas do feminismo e da emancipação feminina. A partir dessa narrativa constrói-se um discurso de ressentimento que transforma mulheres em inimigas e a igualdade de gênero em ameaça.
 
Esses grupos fazem parte do que pesquisadores chamam de machosfera: um ecossistema composto por fóruns, canais de vídeo, influenciadores digitais, podcasts e comunidades virtuais que difundem discursos misóginos, antifeministas e uma concepção de masculinidade baseada na dominação, na humilhação das mulheres e na negação de direitos historicamente conquistados. Nesse ambiente, mulheres são frequentemente retratadas como manipuladoras, interesseiras ou moralmente inferiores. Os relacionamentos deixam de ser espaços de afeto e tornam-se disputas permanentes de poder.
 
Não se trata de opiniões isoladas nem de uma simples excentricidade da internet. Existe hoje uma verdadeira pedagogia do ressentimento, direcionada principalmente aos jovens. Influenciadores acumulam milhões de seguidores vendendo cursos de "masculinidade alfa", técnicas de sedução, discursos de superioridade masculina e teorias conspiratórias sobre as relações entre homens e mulheres. O ressentimento é transformado em mercadoria, enquanto o ódio passa a ser vendido como autoconhecimento.
 
É importante afirmar com clareza: a cultura redpill potencializa a criação paulatina de criminosos, pois contribui para a construção de um ambiente simbólico no qual a desumanização das mulheres passa a parecer aceitável. Quando mulheres são constantemente retratadas como inimigas, oportunistas ou responsáveis pelas frustrações masculinas, a violência contra elas deixa de causar indignação coletiva e passa a ser relativizada, ironizada ou até celebrada em determinados círculos virtuais.
 
O aspecto mais preocupante talvez não seja apenas a existência dessas comunidades, mas sua crescente capacidade de influenciar adolescentes e jovens adultos. Os algoritmos das plataformas digitais favorecem conteúdos cada vez mais radicais porque eles geram maior engajamento. Em pouco tempo, um jovem que procura vídeos sobre autoestima ou relacionamentos pode ser conduzido a conteúdos profundamente misóginos, criando uma espiral de radicalização silenciosa.
 
Esse fenômeno não ocorre apenas no Brasil. Em diversos países, pesquisadores têm alertado para o crescimento da violência motivada pela misoginia, especialmente entre jovens influenciados por comunidades extremistas na internet. A Organização das Nações Unidas já chamou atenção para a violência de gênero impulsionada pelos ambientes digitais, enquanto universidades e centros de pesquisa discutem a radicalização masculina como um dos novos desafios das democracias contemporâneas.
 
O caso ocorrido no Brasil deve servir como um alerta coletivo. O ódio às mulheres não surge espontaneamente. Ele é aprendido, compartilhado, reforçado e legitimado em espaços que encontram cada vez mais visibilidade nas redes sociais e, em alguns casos, até no debate político. Quando a misoginia deixa de ser vergonha para se transformar em identidade, estamos diante de um grave problema social.
 
Combater a violência contra as mulheres exige muito mais do que prisões e punições judiciais. Exige educação para a igualdade de gênero, alfabetização digital, responsabilização das plataformas que lucram com a disseminação do extremismo e políticas públicas capazes de enfrentar a cultura da violência desde a infância. É preciso ensinar meninos que masculinidade não se constrói pela dominação, mas pelo respeito, pelo cuidado e pela convivência democrática.
 
A literatura já nos advertiu sobre esse caminho. Em O Conto da Aia, Margaret Atwood imaginou uma sociedade na qual mulheres perderam autonomia, direitos e liberdade em nome de uma ordem autoritária e patriarcal. A distopia permanece atual justamente porque lembra que nenhuma sociedade se torna opressora da noite para o dia. Antes da violência institucionalizada, há sempre um processo de naturalização do preconceito.
 
Quando o desprezo às mulheres deixa de ser motivo de vergonha e passa a ser vendido como identidade, entretenimento ou projeto político, a democracia começa a perder uma de suas bases fundamentais: o reconhecimento da dignidade humana. E quando odiar mulheres se transforma em projeto de sociedade, toda a sociedade passa a correr perigo.
 
Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), professor de Filosofia, escritor e pesquisador das relações entre educação, cultura, política e sociedade contemporânea.