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Aumentar período de acompanhamento pós-parto pode evitar complicações

09 de julho de 2026 às 16:51

saúde/agência einstein
Monitorar a mulher de perto durante seis semanas após o parto pode ajudar a reduzir cerca de um terço das complicações mais graves relacionadas a esse período, mostra um estudo publicado em março no Canadian Medical Association Journal.
 

© Reprodução/Agência Einstein
 
Estudo mostra que quase um terço
das intercorrências maternas ocorre após
a alta; sepse é a principal causa de
morbidade no puerpério
 
Comorbidades maternas graves são aquelas que resultam em altas taxas de mortalidade, internação ou mesmo incapacidade. Com impacto físico, psicológico e social que pode se estender por anos, elas exigem estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento precoces.
 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define essa fase como o período de até 42 dias após o parto e tem diretrizes para os cuidados nas primeiras seis semanas. “Sabe-se que eventos graves continuam ocorrendo após o parto e o artigo mede isso com clareza, apontando a sepse como a principal causa de morbidade”, analisa a ginecologista e obstetra Fernanda Sawaguchi Faig, do Einstein Hospital Israelita. “[O resultado] Dá peso epidemiológico a algo que nossa prática já sugere: que boa parte do risco está no pré e pós-parto, e não apenas na sala de parto.
 
O estudo avaliou cerca de 1 milhão de nascimentos na região de Ontário, no Canadá, entre 2012 e 2021. De modo geral, as complicações mais comuns foram hemorragia, pré-eclâmpsia e sepse, além de acidente vascular cerebral (AVC), ruptura uterina, condições cardíacas, embolia, falência renal e histerectomia. Cerca de 16% delas ocorreram na gravidez, 55% durante o parto e quase 30% no puerpério.
 
Ao considerar cada etapa (gestação, parto e puerpério), as intercorrências mais comuns foram abdômen agudo, hemorragia severa e sepse, respectivamente. Além disso, quase 4% delas surgiram em mais de um momento. O chamado abdômen agudo, embora não seja relacionado especificamente à gravidez, pode sinalizar condições como apendicite, e seu reconhecimento precoce evita complicações como perfuração, peritonites, sepse e parto prematuro.
 
O fato de a gravidez e o parto terem transcorrido bem não exclui complicações após a alta. “A paciente pode ter tido um parto aparentemente sem intercorrência e depois evoluir com endometrite, infecção de ferida operatória, hemorragia secundária, pré-eclâmpsia pós-parto, tromboembolismo, mastite complicada ou cardiomiopatia periparto”, exemplifica Faig.
 
No Brasil, além de hipertensão e hemorragias, a infecção puerperal é uma das principais causas diretas de morte materna. “Temos forte indicação baseada em evidências para realizar acompanhamento mais frequente e prolongado. O cuidado puerperal deve ser um processo contínuo, não uma única consulta, podendo se estender até 12 semanas após o parto, dependendo do caso.
 
Isso é mais importante nas mulheres com problemas de pressão arterial, transtorno de humor, diabetes, infecções na ferida operatória, lacerações de terceiro e quarto grau em partos vaginais e dificuldades crônicas ao amamentar.
 
No estudo, entre os fatores para maior risco de complicações estão a presença de condições como obesidade, hipertensão e diabetes, além de gestação múltipla, cesariana, mães de primeira viagem, grávidas com idades extremas (acima dos 40 anos ou na adolescência), negras e de baixa renda. “São condições similares à realidade brasileira, e isso é ainda mais importante porque o cuidado puerperal segue inconsistente e as iniquidades são marcantes”, observa a ginecologista e obstetra.
 
O alto percentual de partos cirúrgicos no Brasil é um ponto de atenção. “Isso não quer dizer que a cesárea cause isoladamente a complicação, mas significa que, em um sistema com muita cesariana, o impacto potencial sobre hemorragia, infecção, placenta acreta em gestações futuras e morbidade grave é mais relevante”, pontua.
 
Embora o Brasil conte com diretrizes bem estabelecidas (que preveem duas consultas no pós-parto, uma na primeira semana e outra entre 30 e 42 dias após o nascimento) e já tenha implementado programas com resultados promissores, ainda há uma lacuna entre o que é recomendado e o que de fato ocorre na prática clínica. “As desigualdades regionais, raciais e socioeconômicas persistem como desafios importantes para a saúde materna no país”, afirma a médica do Einstein.
 
Quando ter atenção
 
Alguns sinais de alerta exigem avaliação médica imediata, tanto durante a gestação quanto no puerpério.
 
Na gravidez, são:
 
       • Sangramento;
       • Dor de cabeça intensa ou persistente;
       • Visão turva;
       • Falta de ar;
       • Dor no peito;
       • Dor epigástrica;
       • Febre ou calafrios;
       • Dor abdominal ou pélvica intensa.
 
No pós-parto, é importante buscar atendimento em casos de:
 
       • Sangramento excessivo ou com odor forte;
       • Corrimento vaginal com mau cheiro;
       • Sintomas urinários e redução do volume da urina;
       • Convulsões;
       • Mal-estar acentuado;
       • Pressão arterial elevada;
       • Episódios de desmaio.
 
Por Gabriela Cupani, da Agência Einstein