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São João sem você

24 de junho de 2026 às 12:28

pauta/literatura
É São João. É festa, é frio, é cidade vazia!
 

Escritor Celso Lacerda. Arquvo pessoa
Vejo apartamentos iluminados como fogueiras, mas fogueiras mortas, sem brilho, sem calor. Os fogos rasgam o céu anunciando alegria e, por todos os lados, bombas estouram. Até mesmo os estampidos acionados por mãos infantis não conseguem acompanhar o compasso do meu coração: ora mais lento, ora mais acelerado.
 
A distância, hoje, é minha companheira. Se eu vou, ela vai; está sempre comigo. Se eu paro, ela também para. Parece uma estrada reta, um pontilhar cego que insiste em me afastar de quem amo.
 
As lágrimas que escorrem pelo meu rosto não são aquelas lágrimas prateadas que enfeitam a festa e despertam olhares atentos. São lágrimas de saudade, de ausência, de amor sentido à distância. Vejo a fumaça das fogueiras, as pessoas em constante movimento, as músicas ecoando pela noite e até algumas canções caipiras perdidas na multidão.
 
Encontro-me numa solidão silenciosa. Observo tudo isso como quem está à margem, sem participar da festa que tanto gosto e que tem tanto de mim. A tristeza toma conta dos meus pensamentos. Até o sorriso parece ser engolido pela saudade.
 
O luar não apareceu. Queira Deus que esteja apenas se refazendo atrás das nuvens e que, durante seu repouso, eu apareça em seus sonhos e, juntos, possamos sonhar.
 
Nesse instante, um balão surge no céu como se fosse o único do mundo. Solitário como eu. Sem rumo, sem ritmo, perdendo-se na imensidão da noite. Mas, se aquele balão distante fosse o meu amor, eu já me sentiria feliz apenas por poder contemplá-lo.
 
Queria também que ele estivesse à minha procura. Que se perdesse em mim. Que, mesmo cambaleando pelos ventos da vida, encontrasse abrigo na minha alma e ali fizesse morada.
 
Que seu colorido iluminasse meus dias. Que a chama que o sustenta também iluminasse meus sonhos. Que sua quentura incendiasse meu amor, não para consumir meu corpo, mas para aquecer meu coração, pois esta noite está fria demais.
 
Mesmo em meio aos fogos, às músicas, às fogueiras, à fumaça, aos balões e às pessoas, sinto-me só.
 
Mas, apesar de toda a saudade, da solidão e da distância, ainda me considero feliz.
 
Porque tenho um grande amor.
 
E o meu amor é lindo.
 
E ele existe
 
Por Celso Lacerda, escritor e membro ABLiano
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