* * * * * *

Família Bolsonaro coloca a soberania brasileira em risco

30 de May de 2026 às 18:12

pauta livre/analista político
A recente articulação do senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro junto ao presidente norte-americano Donald Trump para que facções criminosas brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, sejam classificadas como organizações terroristas, abre um perigoso precedente político, diplomático e econômico para o Brasil.
 

© 
Ivandilson Miranda Silva/Divulgação
 
Sob o argumento de combate ao crime organizado, setores ligados à família Bolsonaro tentam construir uma narrativa internacional que pode servir de justificativa para interesses de intervenção externa sobre o território brasileiro. Especialistas em segurança pública e relações internacionais alertam que a classificação de facções como organizações terroristas, especialmente sob influência dos Estados Unidos, não representa automaticamente uma solução eficaz para o tráfico de drogas ou para a violência urbana. Ao contrário: pode ampliar tensões institucionais, gerar instabilidade econômica e aprofundar a criminalização das populações periféricas.
 
O discurso do “combate ao terror” tem sido historicamente utilizado pelos Estados Unidos para legitimar ações militares, intervenções políticas e sanções econômicas em diferentes regiões do mundo. No caso brasileiro, a tentativa de importar essa lógica para dentro da nossa realidade social ignora as complexidades do crime organizado nacional e transforma comunidades inteiras em territórios suspeitos.
 
As consequências podem ser devastadoras. Uma eventual classificação internacional de facções brasileiras como grupos terroristas teria impactos diretos sobre a economia, o turismo, os investimentos estrangeiros e a imagem do Brasil no exterior. Empresas brasileiras poderiam enfrentar restrições comerciais, as nossas operações com o PIX estariam ameaçada, enquanto cidadãos moradores de periferias e favelas correriam o risco de serem tratados com suspeita em aeroportos, processos migratórios e operações policiais internacionais.
 
O problema é ainda mais grave porque essa estratégia pode fortalecer práticas de exceção e ampliar a violência de Estado dentro do próprio país. Em operações militares ou policiais inspiradas na chamada “guerra ao terror”, moradores de comunidades vulneráveis acabam frequentemente tratados como inimigos internos. O resultado costuma ser o aumento das mortes, da perseguição seletiva e da violação de direitos humanos.
 
O procurador Lincoln Gakiya, reconhecido nacionalmente pelo combate ao PCC e atualmente vivendo sob escolta policial devido às ameaças que sofre da facção criminosa, já alertou que medidas dessa natureza podem atrapalhar investigações e dificultar estratégias de inteligência no enfrentamento ao crime organizado. Para especialistas da área, o enfrentamento às facções exige investimento em inteligência, cooperação entre instituições, combate à lavagem de dinheiro e políticas sociais, e não ações espetaculosas voltadas para ganhos eleitorais.
 
A postura da família Bolsonaro revela mais uma vez uma estratégia política baseada na radicalização e no tensionamento permanente das instituições brasileiras. Ao buscar apoio estrangeiro para pressionar o país em meio à disputa política interna, o bolsonarismo reforça uma lógica de instabilidade que enfraquece a soberania nacional e coloca interesses eleitorais acima dos interesses do povo brasileiro.
 
O patriotismo, tão frequentemente reivindicado em discursos e manifestações, perde completamente o sentido quando setores políticos passam a estimular medidas que podem comprometer a autonomia do Brasil diante de potências estrangeiras. Defender a pátria não é alimentar crises internacionais nem criar pânico econômico e social. Defender a pátria é proteger a democracia, a soberania nacional e a vida do povo brasileiro.
 
O Brasil pertence aos brasileiros — e não pode ser transformado em palco de aventuras políticas que colocam em risco a estabilidade do país e a segurança da sua população.
 

Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Professor