A dinâmica eleitoral brasileira tem sido marcada, nos últimos anos, por uma forte polarização entre dois campos bem definidos: de um lado, o lulismo, representado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT); de outro, o bolsonarismo, que, neste cenário hipotético, se expressa na candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Essa polarização, longe de apenas pressionar o ambiente político, pode, paradoxalmente, favorecer uma resolução mais rápida da disputa, inclusive com a possibilidade concreta de vitória ainda no primeiro turno.

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A lógica é relativamente simples: quanto mais cristalizados estiverem os polos, menor tende a ser o espaço para candidaturas intermediárias crescerem. Nesse contexto, o eleitorado se organiza de forma mais direta, reduzindo dispersões e ampliando as chances de um dos lados ultrapassar a barreira dos 50% dos votos válidos.
Polarização como fator de decisão
Diferente de cenários fragmentados, em que múltiplos candidatos diluem o voto e empurram a decisão para o segundo turno, uma disputa fortemente polarizada tende a concentrar forças. Nesse caso, Lula entra com vantagens estruturais importantes: recall eleitoral, experiência administrativa e uma base social consolidada ao longo de décadas.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro carrega limitações que o tornam um candidato vulnerável. Sua trajetória política está fortemente associada ao legado familiar, o que pode dificultar a construção de uma identidade própria enquanto presidenciável. Além disso, temas como o escândalo das “rachadinhas”, sua relação com milicianos, incluindo episódios de homenagens públicas e questionamentos sobre patrimônio, fragilizam sua imagem perante setores mais amplos do eleitorado.
O efeito Caiado na disputa
A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) na disputa, representando a direita tradicional, pode produzir um efeito inesperado: em vez de fortalecer o campo conservador, tende a fragmentá-lo. Para se afirmar como alternativa viável, Caiado precisaria diferenciar-se de Flávio Bolsonaro e isso, inevitavelmente, passa por críticas diretas.
Esse movimento pode gerar desgaste interno no campo da extrema direita, retirando votos de Flávio e dificultando sua consolidação como principal opositor de Lula. Em um cenário de disputa acirrada por esse eleitorado, cada ponto percentual perdido pode ser decisivo.
A campanha e o peso das narrativas
Durante o período eleitoral, é previsível que a campanha de Lula e do PT intensifique ataques ao adversário, explorando fragilidades já conhecidas do público. Flávio Bolsonaro, nesse sentido, apresenta-se como um alvo relativamente fácil: além dos escândalos, há uma percepção recorrente de ausência de um projeto claro de governo, com sua atuação orbitando em torno de pautas familiares e ideológicas.
Em contrapartida, Lula tende a enfatizar realizações de seus governos e políticas públicas com forte apelo social, como: Bolsa Família, Programa Gás para o povo, Minha Casa, Minha Vida, Prouni, Enem/Sisu, Pé de Meia, Mudanças no imposto de renda, Redução da conta de luz para populações de baixa renda.
Esse conjunto de ações dialoga diretamente com parcelas significativas da população, especialmente as mais vulneráveis, o que pode ampliar sua vantagem eleitoral.
Os candidatos ao governo de São Paulo e Minas Gerais
O desempenho dos candidatos aos governos de São Paulo e Minas Gerais — Fernando Haddad (PT) e Rodrigo Pacheco (PSB) — pode ser um fator decisivo para facilitar uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno.
Pesquisas recentes, especialmente as realizadas pelo AtlasIntel, que tem apresentado bom desempenho preditivo nas últimas eleições, indicam que tanto Haddad em São Paulo quanto Pacheco em Minas Gerais demonstram fôlego eleitoral consistente, com chances reais de avançar ao segundo turno em seus respectivos estados.
Esse cenário é extremamente favorável a Lula por uma razão estratégica: São Paulo e Minas Gerais são os maiores colégios eleitorais do país, junto com o Rio de Janeiro. Um bom desempenho de aliados nesses estados tende a impulsionar votos na eleição presidencial, ampliando a capilaridade da campanha e fortalecendo a presença política nos territórios mais decisivos.
Além disso, no Rio de Janeiro, o nome de Eduardo Paes (PSD), aliado político, contribui para a consolidação de um palanque competitivo. No Nordeste, por sua vez, Lula mantém uma base historicamente sólida, com amplas possibilidades de vitória em diversos estados, principalmente na Bahia, o 4º maior colégio eleitoral do país,
Diante desse conjunto de fatores — competitividade nos maiores colégios eleitorais, alianças estratégicas e força regional consolidada —, configura-se um ambiente político que pode favorecer uma vitória ainda no primeiro turno.
E se houver segundo turno?
Caso nenhum desses cenários se consolide, o segundo turno tende a ser mais desafiador. Fatores como a disseminação de fake news, ataques institucionais ao Supremo Tribunal Federal, crises políticas como o chamado “caso MASTER” e até tensões internacionais, como conflitos envolvendo EUA, Israel e Irã, vão influenciar o ambiente eleitoral.
Ainda assim, mesmo nesse contexto adverso, Lula manteria chances significativas de vitória. Isso porque, além de sua base consolidada, enfrentaria um adversário com fragilidades estruturais evidentes. Curiosamente, até mesmo a presença de Caiado pode continuar contribuindo indiretamente, ao dividir e tensionar o campo conservador.
Conclusão
A possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno não se apoia em previsões místicas ou apostas infundadas. Trata-se de uma leitura baseada em elementos clássicos da ciência política: comportamento eleitoral, estrutura de campanha, força de narrativas e fragmentação do adversário.
Resta acompanhar o desenrolar dos acontecimentos para verificar se esses cenários se confirmarão. A política, afinal, é dinâmica — mas nem por isso imprevisível.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Professor de Filosofia.