Há dias em que o Brasil parece um romance russo atravessado por uma gargalhada francesa. Num canto, caminha o príncipe Míchkin, de O Idiota, com sua bondade desarmada, quase escandalosa, dessas que não cabem no mundo. No outro, surge Cândido, de Voltaire, repetindo como um mantra que vivemos “no melhor dos mundos possíveis”, mesmo quando tudo à sua volta desmorona. E, entre eles, atravessando ruas esburacadas, filas de hospital e timelines inflamadas, segue o eleitor brasileiro.

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Míchkin acreditava nas pessoas. Eis seu maior pecado. Sua pureza era interpretada como fraqueza, sua empatia como tolice. Num mundo regido pela esperteza, pela ganância e pela encenação moral, ser bom era quase uma afronta. Não demorava para que o chamassem de idiota, não porque lhe faltasse inteligência, mas porque lhe sobrava humanidade.
O eleitor brasileiro, em muitos momentos, parece herdar esse traço. Acredita. Confia. Espera. Deposita no voto uma espécie de fé — não apenas política, mas quase religiosa. Há nele uma esperança insistente de que, dessa vez, o salvador virá. Que o discurso duro é só pose. Que o desprezo pela ciência é exagero de campanha. Que o desprezo pela vida será corrigido no exercício do poder.
Mas então entra Cândido em cena, com seu otimismo incurável. Ele atravessa guerras, terremotos, traições, mortes e ainda assim insiste: tudo está bem. Esse otimismo não é esperança; é negação. É a recusa em aprender com a dor. É a crença de que o sofrimento, por si só, produz redenção.
E aqui a crônica encontra seu ponto mais incômodo.
Porque o eleitor que presencia tragédias — como as milhares de mortes evitáveis durante a pandemia de Covid 19 — e, ainda assim, se agarra às mesmas ideias, aos mesmos discursos anti-ciência, às mesmas figuras políticas que naturalizaram o descaso, não está apenas sendo enganado. Ele está, de algum modo, escolhendo não ver.
Não se trata mais apenas da ingenuidade de Míchkin. Há algo de Cândido aí, um otimismo que beira o absurdo, uma fidelidade à ilusão que resiste até mesmo diante da evidência da dor. E talvez haja algo além: um tipo de acomodação, de cinismo silencioso, ou até de identificação com aquilo que o prejudica.
É duro perguntar, mas o questionamento se impõe: até que ponto é ingenuidade? Quando o voto deixa de ser um gesto de confiança e passa a ser um ato de negação da realidade?
Talvez o mais trágico seja que, ao contrário de Míchkin, cuja bondade era genuína e desinteressada, parte desse eleitor não está exatamente movida pela pureza, mas por afetos mais turvos: medo, ódio, ressentimento, desejo de pertencimento. E, ao contrário de Cândido, que ao final aprende a “cultivar seu jardim”, muitos parecem não aprender: apenas repetem palavras de ordem, como numa procissão de mortos-vivos, ecos automáticos de um mundo que já não interrogam.
O Brasil, então, segue como essa estranha encruzilhada literária: um país onde o idiota é aquele que ainda acredita na “bondade”, o otimista é aquele que se recusa a ver o desastre, e o eleitor oscila perigosamente entre um e outro. Enquanto isso, os “lobos” já nem precisam mais de pele de cordeiro. Caminham à luz do dia, dizendo exatamente quem são. E, ainda assim, são escolhidos.
Talvez o verdadeiro enigma não esteja nos personagens de Dostoiévski ou Voltaire, mas em nós mesmos, nessa inquietante capacidade de transformar a própria dor em justificativa para continuar acreditando naquilo que nos fere. A semente já foi lançada. Que este seja um tempo de reflexão profunda durante a disputa eleitoral. Pois, ao fazer uma escolha dita “consciente” e se entregar aos lobos, corre-se o risco de oferecer a própria carne às engrenagens das atrocidades promovidas por aqueles “salvadores da pátria” que nós mesmos colocamos no poder.
Por
Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Professor de Filosofia