"Brasil trata as mulheres na política como párias": socióloga destaca o peso do machismo no golpe contra Dilma Rousseff
20 de March de 2026 às 17:15
política/mulheres
Há dez anos, a presidenta democraticamente eleita Dilma Rousseff era afastada do cargo em um processo que ficou conhecido como golpe parlamentar, jurídico e midiático. Mas havia uma dimensão do impeachment que muitas vezes ficou em segundo plano: a violência de gênero. Chamada de “histérica”, “dura”, “incompetente”, Dilma sofreu uma série de ataques por ser uma mulher no cargo mais alto do Executivo.
Maira Covre Sussai discute a violência de gênero no impeachment, construção midiática da ‘mulher histérica’ e reflexos desse processo no avanço da direita
No BdF Entrevista, a professora do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Maira Covre Sussai, analisa a construção misógina em torno da presidenta, o papel da mídia, os reflexos no avanço do conservadorismo e os desafios para as mulheres na política hoje.
Sussai começa por contextualizar a participação feminina na política brasileira. “O Brasil trata as mulheres na política como párias. Hoje temos em torno de 15% de mulheres no Congresso. Os homens acabam sendo os grandes atores políticos até hoje.”
Ela lembra que o banheiro feminino no Senado só foi construído em 2015, durante a gestão de Dilma. “Isso é muito simbólico. As mulheres enfrentam diversas barreiras para entrar na política: os partidos privilegiam candidaturas masculinas, o trabalho doméstico e de cuidado recai sobre elas, e a dominação masculina nos partidos é uma realidade.”
A eleição de Dilma em 2010, no entanto, mostrou que o problema não está no eleitorado. “Dilma e Marina somaram uma proporção enorme de votos. Isso mostra que o eleitorado não tem resistência a mulheres. Quem tem resistência são os partidos e a estrutura social.”
A construção da “mulher histérica” e misoginia
A imagem de Dilma foi sendo construída muito antes do impeachment. “Quando ela era ministra, já era retratada como desequilibrada. A firmeza para a mulher vira sinônimo de desequilíbrio. A mulher acaba sendo considerada a louca.”
Na posse de Dilma, em 2010, o jornal O Globo estampou: “A beleza da vice-primeira-dama rouba a cena”. Sussai analisa: “Marcela Temer foi retratada como a feminina, a bela, enquanto Dilma era a pessoa fora do lugar. Quando Temer assume, vira o jargão ‘bela, recatada e do lar’. Esse é o lugar que querem nos colocar.”
O uso do termo “presidenta” também foi atacado. “A Dilma marca, desde o discurso de posse, que é a primeira mulher presidenta e que está ali para abrir caminho. Quando ela faz isso, marca que ali tem uma mulher no poder. E mulher em lugar de poder incomoda.”
Sussai relembra que Dilma denunciou na Organização das Nações Unidas (ONU) ter sido chamada de “vaca” 600 mil vezes nas redes sociais. “A ideia de mulher histérica é histórica. Mulheres que questionam a ordem de gênero sempre foram consideradas loucas, desequilibradas. Dilma não foi a primeira.”
Os memes e adesivos da época foram ainda mais violentos: “um adesivo vendido no Mercado Livre por 30 reais era apologia ao estupro. Colocava a cabeça da presidenta com as pernas abertas, e a gasolina entrava ali. Aquilo era um indicativo do que a gente vive hoje: comunidades misóginas, estupros coletivos, naturalização da violência."
Para a socióloga, os ataques a Dilma escancararam o que estava incubado. “Antes misoginia parecia um termo exagerado. Hoje a gente vê que não era. As pessoas perderam a vergonha de serem misóginas.”
Sussai compara os ataques a Dilma e a Lula. “Numa pesquisa que fiz, ao buscar o discurso de Dilma, as primeiras manchetes eram xingamentos: ‘a louca, a vaca’. Para Temer, era ‘senhor presidente’. Para Lula, críticas, mas respeitosas. O gênero pesou mais que a classe.”
O legado para as eleições e o futuro
Sobre o cenário atual, Sussai vê um conservadorismo crescente entre os jovens. “Pesquisa recente mostra que 20% da geração Z no Brasil acredita que a mulher deve ser submissa ao marido. Isso é muito preocupante. Meninos têm acesso fácil a conteúdo misógino nas redes, enquanto meninas viveram a Primavera Feminista.”
Ela acredita que o Brasil pode voltar a ter uma presidenta mulher. “Em 2010, a maioria votou em mulheres. O problema não é o eleitorado, são os partidos. Se eles não atrapalharem, as mulheres vão. A política de cuidado do governo Lula pode ajudar, ao reconhecer a sobrecarga feminina. Mas precisamos enfrentar esse conservadorismo que surge como retrocesso.”
Sussai encerra com uma reflexão sobre a disputa em curso. “Estamos num momento de disputa de valores. Os discursos extremos são minoria, mas o subliminar — a ideia de que a mulher precisa ser protegida, não de que o homem não pode bater — é mais forte. É uma questão complexa, e a sociedade está aprendendo que violência de gênero fere os direitos humanos das mulheres.”