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Após 77 anos, sonho de família se concretiza

31 de January de 2026 às 18:32

pauta livre
Sim. Após 77 anos, um antigo sonho se realizou. Vou explicar ou tentar relatar como tudo teve início

E esse prefácio teve como protagonista, um jovem descente de imigrantes italianos que escolheram a cidade de Jaguari, Rio Grande do Sul, para iniciarem uma nova jornada fugindo da fome e das suscetívas guerras que assolavam a Europa.
 

Eduardo Lena e sua filha
 
Maria Eduarda © Arquivo pessoal
 
Esse jovem era Vinícius Azzolin Lena, primogênito de uma família de sete irmãos. Com um sonho em mente, aos 17 anos incompletos, foi estudar o segundo grau (científico) num seminário na cidade de Santa Maria/RS, o renomado Colégio Marista, administrado pela Igreja Católica, onde além de estudar teologia, buscou formação em Ciências Contábeis entre os anos de 1947 e 1949. Poderia ter permanecido como seminarista, mas seu grande sonho era poder ajudar seus conterrâneos na área de saúde, algo bastante precário à época. Munido desse objetivo rumou para Porto Alegre, levando na bagagem o sonho de cursar medicina e retornar para sua cidade natal.
 
Na capital dos gaúchos começou o seu contato com a literatura, mas seu grande sonho em cursar medicina continuava latente. Para custear sua estadia na capital passou a trabalhar na Livraria O Globo, na Rua da Praia. Posteriormente, a livraria mudou para a Rua dos Andradas, onde o memorial e a cafeteria ainda funcionam. A Livraria do Globo foi um ponto de encontro para intelectuais e artistas em Porto Alegre, local onde conheceu o poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana.
 
Meu pai comentava que durante as manhãs era comum encontrar o poeta na Praça da Alfândega, onde costumava sentar para ler o Jornal Correio do Povo, do qual era colunista. A praça é um local histórico da cidade e possui bancos de bronze onde Quintana e outros escritores, como Carlos Drummond de Andrade, costumavam se encontrar. Nesses tempos de Livraria o Globo, meu pai também escreveu alguns artigos que foram publicados no Correio do Povo, que foi o principal jornal gaúcho a época.
 
Mas o sonho de cursar medicina veio abaixo quando, em uma carta enviada por seu pai Vitório Emmanuel Lena, recebeu a ordem de retornar a Jaguari. Meu avô Vitório e os irmão Orlando e Luis Lena arrendaram uma propriedade na zona rural de Jaguari, na localidade de Passo dos Barroso, onde pretendiam dar início a um empreendimento voltado a produção de arroz irrigado.
 
Como era comum naquela época, cada um dos Irmãos Lena indicou seu primogênito para os representar e gerir a lavoura. Coube a meu pai representar a família de Vitório Lena, Flávio Sacilotto Lena assumir em nome de Orlando Lena e Léo Lena, foi o apontado de Luís Lena.
 
Com o passar dos anos, meu pai contraiu matrimônio com minha mãe, Sirlei Magdalena Vencato Lena, com quem teve quatro filhos: Vitor Emanuel Lena, Marcos Daniel Lena, Eduardo Vencato Lena e Vanessa Vencato Lena. A partir daí, iniciou-se uma etapa bem diferente e distante dos sonhos que ele nutria.
 
Em vez dos livros e das carteiras de uma sala de aula universitária, o banco de um trator passou a fazer parte de seu cotidiano. Não era o que gostava nem o que sonhava, mas o compromisso de sustentar a família o fez encarar esse desafio com muito afinco. Entrou para a política, elegeu-se vereador em Jaguari por duas legislaturas e abandonou o segundo mandato no meio, por não concordar com os conchavos que já existiam naquela época.
 
Com o passar dos anos, de plantador de arroz passou a cultivar soja, trigo e milho. Foi então que, em 1985, ao ler uma reportagem no jornal Zero Hora sobre Barreiras, apresentada como a nova fronteira agrícola do país, decidiu mudar os rumos da família. Com um filho, Marcos, recém-formado em Agronomia, e outro, Eduardo, técnico em Agropecuária, não pensou duas vezes. Vendeu a propriedade agrícola que possuía na localidade de Mocambo, no município de São Francisco de Assis, colocou a mudança na boleia de um caminhão e partiu para o Oeste da Bahia.
 
A família ficou alguns dias, juntamente com outros gaúchos recém-chegados, morando sob uma lona preta no antigo Posto Carreteiro, em frente à atual rodoviária de Barreiras, até conseguir uma casa para alugar — algo bastante concorrido naquele tempo.
 
O contato com a escrita voltou a ocorrer após um evento traumático. Em 1991, seu primogênito, Vitor Emanuel Lena, foi bárbara e covardemente assassinado em Barreiras. Vitor havia fundado, em 1989, o Jornal Nova Fronteira, e Vinícius, como forma de homenagem, resolveu assumir a direção do periódico. Desfez-se da fazenda que havia adquirido no município de São Desidério, na localidade de Campo Grande, e passou a editar e chefiar a redação de um dos principais veículos de comunicação do Oeste da Bahia.
 
Voltando ao ano de 1982. Foi nesse período que me formei como técnico em Agropecuária pelo Colégio Agrícola de Alegrete (atualmente IFFarroupilha) e, após receber o diploma, prestei meu primeiro vestibular. Também tinha em mente o curso de Medicina, mas, devido à alta concorrência e ao fato de a formação técnica em Agropecuária ser menos indicada para esse curso, optei por concorrer a uma vaga em Medicina Veterinária. Apesar de ter obtido uma nota razoavelmente boa, não consegui ingressar na Universidade Federal de Santa Maria.
 
Retornei então para ajudar meu pai na lavoura. Diferentemente de meu avô, não precisei ser convocado para a função de agricultor; a decisão foi única e exclusivamente minha. Sabia das dificuldades que meu pai enfrentava para manter meu irmão Marcos no curso de Agronomia, em Passo Fundo (RS), e isso me incentivou a abraçar essa missão.
 
É nesse ponto que retornamos a 1985, quando a família decidiu sair da zona de conforto e iniciar uma nova empreitada em um novo estado, em uma nova fronteira agrícola, a 2.200 quilômetros de Jaguari.
 
Avançando para o ano de 2005, a Faculdade São Francisco de Barreiras (FASB), atual Uninassau, lançou o curso de Jornalismo. Imediatamente me inscrevi no vestibular e, após 23 anos longe dos bancos escolares, fui aprovado na turma pioneira. Formado em 2008, segui ao lado de meu pai e de minha companheira de vida, Leila Ribeiro - com a qual tive dois lindos filhos, Marcus Vinícius e Maria Eduarda -, na administração do Jornal Nova Fronteira, onde atuo até os dias atuais.
 
Com o falecimento de meu pai, o desejo de cursar Medicina passou para minha filha, Maria Eduarda. Após tentativas em vestibulares no Paraná e Bahia, todas sem êxito devido a alta concorrência, surgiu uma nova possibilidade, cursar medicina na Argentina, onde o vestibular não é um entrave para o estudante. Atualmente Maria Eduarda cursa o 5º ano de medicina na Faculdad Hector Alessandro Barceló.
 
Em 2024, ao acompanhar uma entrevista concedida por Adma Lacerda, pró-reitora de Graduação da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), à rádio Oeste FM, tive conhecimento das Ações Afirmativas do Governo Federal (PFAA), programa que visa promover igualdade e reparar disparidades históricas no ensino superior. Durante a entrevista, foi mencionada a existência de uma vaga destinada a pessoas com 60 anos ou mais em qualquer curso ofertado pelos campi da UFOB.
 
Naquele momento, a brasa do antigo sonho de cursar Medicina recebeu um sopro, e a chama voltou a acender. Entre os pré-requisitos para concorrer à vaga, além da idade mínima de 60 anos completos no ato da matrícula, era necessário ter participado do Enem em pelo menos uma edição entre 2009 e 2024 e ter cursado todo o ensino médio em escola pública. Como atendia a todos os critérios, coloquei meu nome na disputa.
 
No resultado parcial das inscrições, dez pessoas concorreram na mesma categoria, e fiquei em segundo lugar. Pensei: “Tudo bem, não foi dessa vez”. Em 2025, fiz novamente o Enem e, com a nota obtida, concorri mais uma vez a uma vaga em Medicina. Para minha surpresa, entre cinco concorrentes, fiquei em primeiro lugar.
 
Agora, resta preparar o psicológico para enfrentar esse novo desafio. Como já dizia Raul Seixas, em Ouro de Tolo:
 
Eu é que não me sento no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar
 
Detalhe: A foto foi tirada durante minha visita a minha filha que estuda em Buenos Ayres, Argentina. Aqui, além de matar a saudade, estou servindo de cobaia para a futura médica.
 

Por Eduardo Vencato Lena, editor Jornal Nova Fronteira