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“O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”: Dilemas da esquerda no Brasil

08 de novembro de 2024 às 17:46

pauta livre
O sábio orixá da música popular brasileira, o senhor Gilberto Gil aponta com muita inteligência em sua música chamada Rep, algo que tem sido muito caro para os analistas políticos contemporâneos. Chamo essa questão de vontade popular, o que o povo quer, o que o povo decide. Essa vontade, esses interesses que move a maioria do povo é o nó que a esquerda brasileira precisa desatar.
 

© Google/Divulgação
 
Durante algum tempo, sobretudo, entre os anos 70 até o final dos anos 90 do século XX, a esquerda tinha uma situação muito favorável e “nadava de braçada” nos movimentos sociais e foi responsável pela reorganização do movimento estudantil com a União Nacional dos Estudantes (UNE), a consolidação de movimentos progressistas na Igreja com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e pastorais diversas e a criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Partido dos Trabalhadores (PT). Era um contexto de fluxo e muita mobilização dos setores progressistas.
 
Neste momento, o povo via como muita nitidez a contradição capital X trabalho, pois os sindicatos com sua capacidade de organização e suas greves estavam presentes na mídia (para o bem ou para o mal) e ocupavam o centro do debate sobre a exploração do trabalho e suas nuances. Luiz Inácio Lula da Silva despontava no final dos anos 1970 como uma grande liderança sindical, inclusive sendo preso pela ditadura civil-militar que sufocou o país entre os anos de 1964-85.
 
Outro elemento importante é que não vivíamos sob a égide da Internet e das redes sociais que hoje potencializa as Fake News criando uma realidade paralela com mentiras que acaba anestesiando o povo, fazendo essa gente acreditar em sandices inventadas que será prejudicial para o próprio povo.
 
As fakes News são hoje os maiores instrumentos de dominação e manutenção do poder do capital e de um modo de fazer política que responde pelo nome de extrema direita que se disfarçam como conservadores, mas no fundo, no fundo são adoradores dos regimes fascistas e nazistas do início do século XX. Essa gente é perigosa e cresce todos os dias com a ampliação dos seus canais em diversas redes socais que, infelizmente, ainda não tem uma legislação capaz de punir esses criminosos disseminadores de mentiras, boatos, acusações falsas que prejudica a vida das pessoas.
 
Para Chauí (2024)[2] vivemos num mundo de servidão, pois somos manipulados pelos aparelhos de comunicação e achamos que temos liberdade. O celular é hoje uma espécie de patrão invisível para os trabalhadores de aplicativo, uma igreja invisível que aliás, o grande Raul Seixas já antecipava na música “Pastor João e a igreja invisível”, um conselheiro invisível (Coach), relações de amizades e amorosas invisíveis, pois existe uma barreira entre o real e o digital. Todos estão se comunicando, mas não há mais vida real, toque, o desaparecimento do real vai se tornado um fato e as relações digitais se impõe e nos torna servos dessa realidade. 
 
A servidão voluntária de Étienne de La Boétie[3] (2017) que faz o povo delegar suas decisões para um homem, um monarca que tem poderes tirânicos, agora se transforma numa servidão digital que manipula todos e nos faz refletir que o mundo matrix, da ilusão da realidade se estabeleceu de fato. Eis um dos maiores desafios para a esquerda.
 
Dito isto, temos o resultado das eleições norte-americanas, que acabou de sair do forno, recolocando Donald Trump no poder para seu segundo e, talvez, último mandato por conta das regras eleitorais deste país. Trump se beneficia destes dois elementos apresentados acima: a fragilidade dos movimentos sociais e a força das redes sociais.
 
Os movimentos sociais vivem seu refluxo, inclusive nos Estados Unidos e mesmo com o enfrentamento das questões raciais com o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), que tiveram como estopim o assassinato de George Floyd pela polícia estadunidense, não foi capaz de criar um fluxo continuo de movimentos sociais estabelecendo um diálogo de pautas gerais com outros seguimentos, inclusive o movimento sindical. 
 
Enquanto isso, a REDE, esse fantasma que ameaça o mundo foi extremamente eficaz para fazer os estragos necessários e contar todo tipo de mentira, principalmente através da rede social X, do Elon Musk que abraçou a candidatura de Trump e injetou milhões de dólares para sua vitória. Não estou dizendo que os democratas não produziram Fakes News, pois a intenção do texto não é passar pano para ianque, mas o modus operandi trampista é conhecido em todo mundo e quando esse cidadão se junta com Elon Musk não espere coisa boa.
 
A extrema direta domina o processo produtivo de Fakes News e se profissionalizou nessa área e como não existe controle para as mentiras produzidas na Internet, quem tem o controle desta tecnologia tem ampla vantagens em formar opinião na sociedade. O que a extrema direita chama de liberdade de expressão, seria crime e, em alguns casos hediondo, por conta da sua gravidade. Mas o mundo adoecido e sedento de vontade de poder e dominação abre mão de qualquer princípio ético para que o outro, o adversário político seja derrotado de qualquer jeito.
 
Chegamos ao extremo do maquiavelismo e se Maquiavel defendia ainda algum senso de racionalidade para governar o Estado e manter o poder, em tempos macabros de redes sociais, a racionalidade cede espaço para o ódio que se evidencia na morte, no desaparecimento, no extermínio do meu opositor, pois os meus, aqueles que defendem minhas ideias devem participar do meu projeto de poder, “os outros são os outros e só”[4] é a morte completa da ética e do que tentou se chamar por muitos intelectuais de humanidade.
 
O grande mestre Enrique Dussel (1993, p. 36), na obra O Encobrimento do Outro nos mostra que essa desumanização sempre esteve no radar dos colonizadores, pois “a Europa tornou as outras culturas, mundos, pessoas, em objeto lançado diante de seus olhos. O "coberto" foi "des-coberto": europeizado, mas imediatamente ‘en-coberto’ como Outro." A criação da identidade europeia por meio do encobrimento da América Latina comprova que o projeto humanitário do Ocidente sempre se comprometeu com o eurocentrismo. Isso é desumano.
 
Diante disto e depois de mais de 500 anos de colonização e lutas dos movimentos sociais, temos uma conjuntura muito difícil para os setores progressistas que sempre questionaram essa lógica colonialista. O resultado das eleições norte-americana nos mostra que no Brasil, a extrema direita ficará entusiasmada e já se organiza para voltar ao poder e terá o apoio de Elon Musk para desestabilizar o que ainda existe de democracia no país.

Os filhotes de ditadores estão cheios de vontade para ganhar a presidência da república e fazer maioria no senado federal. Se vão conseguir, são outros quinhentos. A esquerda nesse processo tem que usar os mesmos métodos da extrema direta? Como o Brasil deve se posicionar diante da mudança de governo nos EUA?
 
O Brasil sendo inteligente deve se aproximar mais da China e fortalecer os BRICS, pois se os EUA promover uma guerra comercial contra a China, isso abre oportunidades para aumento de vendas brasileiras, por exemplo nas compras de soja brasileira pelo governo Chinês. Não descartando as relações com os EUA, mas priorizando o fortalecimento dos BRICS, o Brasil mantém seus parceiros e não precisa procurar guerra com ninguém.
 
Sobre usar os mesmos métodos da extrema direita, a esquerda tem que fazer o que sempre fez de melhor, deve recuperar a capacidade de luta dos movimentos sociais e uma das saídas que aponto é a consolidação das Universidades Populares.
 
As Universidades Populares já estão por aí e fazem a diferença com música, poesia, teatro, artes plásticas, cursos técnicos, de artesanato, escolinhas de futebol, educação ambiental, cursos pré-vestibulares, quilombos educacionais, grupos de capoeira, escolas comunitárias, museus de arte popular, entre outras iniciativas que torna a periferia um espaço privilegiado de produção de conhecimento e socialização de saberes que recupera o sentido do popular, a história do povo e do seu lugar.
 
A Universidade Popular é a transição necessária que muitos movimentos sociais precisam fazer para ampliar suas lutas no século XXI. É preciso fazer chegar esses valores com mais intensidade e intimidade às pessoas da periferia. Converter e reconhecer experiências educativas, culturais, ambientais que estão presentes nas comunidades em universidades populares, talvez seja no momento contemporâneo das lutas dos povos, uma reoxigenação das mobilizações populares por melhores condições de vida.
 
Na minha tese de doutorado sobre a Universidade Popular das Madres da Praça de Maio detalho essa questão e acredito ser uma das saídas para esse processo de apatia dos movimentos sociais. Vamos conversando.
 
Por Ivandilson Miranda Silva, doutor em Educação e Contemporaneidade pela UNEB e Mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. Professor. E-mail: ivanvisk@gmail.com
 
 
Referências:

DUSSEL, Enrique. 1492: O encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993.:

LA BOETIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária. São Paulo: Martin Claret, 2017.
 
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[2]. Ver Dando a Real com Leandro Demori recebe a filósofa Marilena Chaui, TV Brasil 2024, Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qIiBXRG4JAw
 
[3] . O filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563) estudou a servidão voluntária, destacando que muitas pessoas se submetem a situações de opressão e exploração por vontade própria ou, ao menos, aceitando sem oferecer qualquer resistência, podendo ainda demonstrar satisfação.

[4] . Ver Kid Abelha, Os outros. Composição Leoni, Álbum: Educação Sentimental, 1985.