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Vale Maribu: um oásis de produção familiar pouco valorizado e conhecido no Matopiba

14 de julho de 2024 às 18:14

pauta livre
No dia de ontem, 13 de julho de 2024, tive oportunidade de visitar mais uma vez o famoso vale Maribu. Ele fica a 74,6 km do município de Barreiras, especificamente no Povoado do Cantinho em Cristópolis, BA. Para aqueles que ainda não conhecem, o referido vale fica nas áreas de transição Cerrado/Caatinga. Um verdadeiro “Jardim do Éder”. O visitante ficará  maravilhado pela disponibilidade de água, o povo acolhedor e com a diversidade de plantações da agricultura familiar baiana. 
 

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A sua extensão deve ultrapassar 2 mil hectares. Observa-se que a sua paisagem é dominada pelas pequenas plantações de cana-de-açúcar, plantações de alho, plantações de hortaliças e, etc. E, em seu entorno pastagens para o gado leiteiro e gado branco.  
 
Os pequenos produtores consorciam tecnologias milenares de produção e manuseio da cana-de-açúcar até a preparação dos rótulos, engarrafamento e criação de marketing para a comercialização no Instagram!
 

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Os dados informados pelos moradores são expressivos. Estima-se que o vale possui ainda 284 produtores de cachaça e produtos derivados da cana-de-açúcar. Uma produção significativa que vai do mês de julho até o mês de dezembro de cada ano.
 
Segundo os habitantes locais, os alambiques que produzem menos são 100 litros dia. Já, há outros que chegam produzir 500 litros dia de cachaça. Isso tudo, em aproximadamente 150 dias de cada ano. Também há uma expressiva produção de rapadura, melado, açúcar mascavo que são comercializados ao longo da BR 020, no espaço urbano de Cristópolis, BA e outros municípios da região Oeste da Bahia. Além disso, se você seguir até a cidade de Cristópolis, BA você pode se refrescar no Rancho Verde com os picolés do Cerrado, do colega Bartolomeu.
 
Pode-se dizer que há uma grande produção de cachaça ao longo deste vale. Aqui é importante destacar que não fica restrito apenas ao município de Cristópolis, BA. Essa produção espalha de forma linear pelo vale Maribu para Baianópolis e conecta-se com outros vales úmidos até Cotegipe, BA. Todavia, a sua maior concentração fica no entorno do povoado do Cantinho e, mormente no município de Cristópolis, BA.


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Para Lindauro Nunes, a produção é satisfatória, porém precisa de dedicação! Ele é o produtor de maior organização e de espírito empreendedor. Hoje um pequeno empresário bem-sucedido na região. Ele é o proprietário e produtor da marca de cachaça Baiana Bacana . Atualmente, ele produz uma série de produtos alcoólicos, rapaduras, refrigerantes naturais e, por último abriu uma lanchonete/restaurante às margens da BR-020. Ele destaca a satisfação e mostra os seus produtos com alegria. Contudo, ressalta a ausência das universidades, dos governos e da falta de mão de obra para o corte da cana-de-açúcar. 

Observa-se também que há muita tecnologia social aplicada no plantio, na colheita e na produção dos derivados da cana-de-açúcar. Ficou nítido também que as mudanças climáticas devido as alterações nas paisagens locais e regionais já impactou e continua impactando devido à redução da disponibilidade de água potável.

Diante da minha visão enquanto geógrafo-educador a continuidade da atividade depende de uma série de ações, apoio e de formações. Para isso, é importante despir do prior mal que ronda as mentes na região do MATOPIBA: “monocultura das mentes”. Diante desta constatação e da expansão da agricultura industrial produtora de commodities é preciso valorizar A DIVERSIDADE DE TECNOLOGIAS SOCIAIS que os habitantes destes territórios desenvolveram nos últimos três séculos de sobrevivência profunda.
 
Os produtores/habitantes possuem um modo de vida muito interligado com a sazonalidade do cerrado, elementos culturais intermeados dos povos originários. Todavia, sem apoio e incentivo do poder executivo municipal e estadual. Eles são resilientes por meio da produção de alimentos. Mesmo diante das mudanças territoriais recentes, conseguiram vencer diversas adversidades para sobreviver, criar suas famílias e estudar os seus filhos.
 
Todavia, sabemos que vivemos uma transição cultural muito forte na região e na Bahia. Os bens naturais devido ao uso intenso pelo setor industrial da agricultura de commodities se tornaram mais escassos devido as mudanças dos índices de evapotranspiração, de infiltração e do grande uso de água superficial e subterrânea nas grandes lavouras irrigadas nas chapadas “gerais”. Tudo aliado e somando com as mudanças climáticas. Além disso, houve a redução do número de filhos (natalidade), muitas pessoas migraram, outras foram trabalhar fora e já há relatos da falta de trabalhadores locais para o processamento da cana-de-açúcar. 
 
Desse modo geral, posso afirmar que se não tiver os camponeses, as famílias geraizeiras e outras se não abrirem para ações voltadas para a diversidade, a inserção de técnicas de proteção ambiental de suas paisagens e territórios vividos todos podem perder as condições mínimas para a reprodução da vida. A educação ambiental voltada para a sustentabilidade é urgente. 
 
Por último, posso dizer que neste sábado dia 13 de julho de 2024, tive a oportunidade de conviver e conversar com pessoas extraordinária no Vale Maribu, pessoas fortes, trabalhadoras e empreendedoras, mas, que já passam pelos desafios da sucessão familiar, pela falta de apoio para o melhoramento de suas tecnologias sociais voltadas para a produção de alimento (soberania alimentar) nos últimos séculos no sertão profundo do Estado da Bahia.  
 
Dr. Valney Dias Rigonato, geógrafo-educador. Professor do Curso de Pós-graduação em Ensino e do curso de Licenciatura da UFOB. Tutor do PET Humanidades.  Diretor da Associação dos Geógrafos Brasileiros Seção Santa-Inês, BA. Membro da Academia Barreirense de Letras, Cadeira 30.